são paulo da vida que alaga
do dia que nasce mofado
das pessoas impermeáveis.
são paulo da lida que vaga,
da noite que dorme molhada
dos carros e gripe,
das gentes paradas em semáforos.
das gentes que só vêem três cores.
15.2.08
27.12.07
6.12.07
travesseiro
depenado em espumas, rasgado de corpo inteiro. travestida em choro, de preto, de saia, de pequenos cortes. de tecido. teimosa de lidar da vida. me encontro linda no espelho quebrado desse banheiro. travesseiro nervoso, utilitário, sou um cavaleiro desnudo. sou travessia. bate na cara. no cara, na cor minha de rei princesa. direi filha da puta. filho sem puto, sem o direito de ser direito.
o batom pastoso me passa da porta para a rua. calçada. descalço, num quarto qualquer, poderosa, poderoso, alguém me toma no cu, me joga na pedra, no lençol sujo. não há lenço. homem não chora e seguro em meu vestido preto a dor do ser qualquer, casaco pele de bicho. e quem grita por mim, se minha palavra quando sai é choro? se meu andar é cadente de cada em tempo manco. meu corpo travesssia o seu. atravesseiro em riacho diacho. me contemplo na dor do teu suor de sangue. travessado, transparente, transitório, transeunte.
tomo meus cortes no corpo. tomo todas pílulas da felicidade intermediária. da vida entre o vão, entre o carinho e o murro, entre ser inteiro e ser entre. entro em casa, entro no banho, aperto entre as pernas. travesseiro.
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19.10.07
ciranda da lua
o vestido mais bonito, aquele rodado que abraça minhas pernas.
de mãos dadas fazendo coração no ombro
e sorrindo bobo o braço solto.
a noite enluarando nossas sombras,
juntas como alma no chão, cheia na rua,
conversa sem gravidade bailando ciranda
sentir o calejo das mãos, os gomos dos dedos,
a dança nova, o sorriso crescente, a rua cheia, a dor minguando
em cada carícia esbarrada, ombro em colo, susto de se perceber perto.
o amor ridículo dos clichês, o amor dos sonetos sem métrica,
das juras confusas, dos nossos sonhos românticos
olhados pela lente do garrafão de vinho.
bailando canção nova
enquanto meu peito crescente,
iluminado pela luz cheia,
esquece toda dor minguante.
nosso amor dança, cantado pelo coelhinho da lua,
se junta, se roda, se pé, se dança, se canta, se roda, se junta, ciranda.
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1.10.07
canto calado
corre num ninho
passo largo e bico
fechado feito pato
nesse lago corre ninho
vida desnuda pena
olhos grandes
curiosos de vida
de voar correr céu
corro passarinho
e vejo começo
buniteza e ninho
bicos fechados
vida sem pena
peso e cuidado
vida sem canto
canto corro ninho
vida passarinho
toca vida primeira
vida e toca seresteira
passa ninho
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20.9.07
12.9.07
concepção
hoje me reparto em mil partos,
me reparo no instante e paro.
parado entre o parto e o infarto,
farto dos nascimentos concretos,
dos cimentos fartos em minhas pernas,
em meus partos, em meus infartos.
hoje me distribuo em fardos,
almofadas de pesos em meus calos,
em meu lombo que mofa a voz
que me leva louco ao colo, me calo.
hoje eu me divido em eternidade,
em cortes retos a cada nova idade,
em fortes ventos que me fazem partir.
a ti me parto, farto chego em seus braços fartos.
chego aconchegado em teus todos braços,
e quando vejo em teu rosto-espelho o enfado,
já é hora de me repartir, parto.
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7.9.07
gaveta
quando
abro desponta
aos poucos uma luz insegura que apoiada
nos contornos da madeira se espreguiça toda pra fora.
olha para os lados e se atira na imensidão do lá.
raios finos compridos cumprimentam os pontos mais escuros.
que gentis se encolhem nas cantos das paredes.
embaixo da cama, em algumas sombras que fazem palco.
deito empurro, aos poucos, madeira, que agora faz, trêmula luz..
balé de opostos, dança una de recuo cinza
mergulho de costas buscando a mão
madeira, ainda um olhar
que se ajoelha
e fecha os
olhos
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6.9.07
sapopema em quadrilha
a rua dos banqueiros é paralela a rua do controle é parelala a dos correntistas é paralela a da bolsa.
as paralelas tortas se cruzam na rua da dos financeiros que ainda não tinha entrado na história.
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5.9.07
botequim
pois é. é cada tapa. parece que não dá sossego essa vida. dá sim. simplesmente chego e toma uma que nem sei. sei como é. é não. não que eu digo o contrário mas passa. passa bem. bem que eu disse pra tomar jeito. jeito nada. danada parece até sabonete. teimosa que se pega no ar já foi. foi mesmo. mordeu o zóio e saculejou toda saia. a não ser que. que me diz. digo sem aflição que é. é engodo. do meu eu garanto que é pois. pois é.
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índice
sujeito simples, as vezes composto, quase sempre indeterminado. cheio de predicados e apostos. poucos pontos, muitas exclamações. adjetivo, sem restrição ou explicação. alguns parenteses (só os essenciais). aspas quando lembro de citar. reticências reticente quando quiser o todo. interrogação para as exclamações mais cheias de suspense. concordância nenhum quando o sujeito não for de compartilhado. gerúndio enquanto estamos fazendo que o aparecimento do ponto se faça feito! particípio sim, de todas os encontros, consonantais ou não. orações coordenadas com meu deus, caminho sintático pela vida, palpando nas morfologias, nos sujeitos abstratos, nos substantivos de modo, nos telhados do meu alfabetomega...
e ponto final!
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separado
descançarmeupeitoserenarossuspirosospésdoídosasensa
çãodeesgotamentoquetomatodoom
eucorpoencontraralgumasoluçãopraessemundoquem
edátoconasmaistênuesesquinasqueriasairdessaruaentraremcasaemumacasae
deitarnumlugarqualquerdede
scançoquente mas não preciso mais ficar preocupado o frio parece diminuir me sinto quente, calmo, a noite pra dentro, eu engolindo cada estrela, gargantardente cachaçada noite, hoje anoitenão vai acabar; me dei to na cal ça daon de ex piro,
m e m o r r o.
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3.9.07
allegro molto
poesia muda é feita na mão,
entre sinais libres,
nas entrelinhas dos dedos,
no dedilho das palavras surdas.
afrouxo de voz
vocalizações inauditas
minhas cordas emaranhadas
contorcem em dança quieta
surdo em batuque bateria
bateria em meu peito de vibração
faria o som surdo
vibratto em meu allegro
afinado e mudo.
quadrilha junina
a dança nas mãos
a música no rosto
o maestro em todo lugar
com meu peito surpreso,
minha boca se cala,
minha voz se muda de lugar.
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19.12.06
mp3 (ou crônica para escutar no ipod)
god save the queen. saio de casa cedo. cabelo molhado, gel, mochila e o essencial para voltar no meiar da noite. há algum tempo passei a usar um mp3. à noite, seleciono a trilha sonora do dia seguinte. preparo pilha e fone de ouvido. de manhã, basta um toque e o mundo ganha som. god save the hostory. intercalo as paisagens vistas pela janela do ônibus à la heavy metal e punk rock. a trilha quase sempre desconexa com a paisagem dá charme especial. oh lord god have mercy...
então passei a reparar a enormidade de pessoas que perambulam pela cidade com os fones pendurados no ouvido. drive my car into the ocean. e ouço pessoas passando pela avenida paulista ao som de debussy, ou atravesso o largo da concórdia com açúcar e com afeto e tanta gente com aquele fiozinho pendurado entre as orelhas. on a wave of muti...
bom dia. oi. i've kissed mermaids. dá rode the licença el nino. desculpa incomodar. oi. walked. moça. the sand. esses dias vi no metrô uma senhora levar alguns minutos para se fazer ouvir pela mocinha que ocupava seu assento preferencial. a menina tira o tapa-ruído, levanta as sobrancelhas, arregala os olhos. a senhora começa tudo de novo. seu cartão não passou. o rapaz tira o fone e pergunta. o que? o seu cartão... oi, que horas são por favor? oi! o boy tira os fones. que foi? as horas... wave of mutilation, wave of mutilation...
a comunicação ficou mais difícil. as pessoas sai em busca de salário têm de falar tudo dobrado. e sabe aquela vontade interiorana de conversar com a pessoa que sentou do seu lado no ônibus pra comemorar nem sei o que? esquece! ela está de mp3. é uma placa silenciosa de quem quer ficar no próprio barulho. e mundo parece ficar mais autista. vamos se enclausurando na trilha sonora do dia. a ida ao trabalho qual o que é um longo vídeo-clipe.
comecei a me angustiar vendo essas pessoas, você vem feito criança. todas tão solitárias no meio de seu mundinho, que antes já era fechado, agora vem com trilha maltrapilho, maltratado. hoje entrei no ônibus, depois de passar dez minutos tentando entender o cobrador que me pedia para dar o dinheiro a ele e descer pela porta da frente. Sentei no assento não-preferencial, tirei os fones e me senti feliz com todo aquele barulho. Sai da frente filho da puta!
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20.8.06
pêndulo
de certo, estou errado!
só pode ser,
é o que me parece...
se me aparece a soma,
some com certeza o que pode ser.
e se poder era noutra era o que se erra
então o meu caminho errante
de certo está errado!
certeiro no desajuste,
o ponteiro se perde na hora contrária.
contraria o que se acha
de certo de estar justamente apontado.
ao ponto aponto a pena
e ponho no pêndulo.
penduro a maciez do pontilhado,
e pinto o telhado do balanço comportado.
com porta e traço
ponta do lápis alada.
ao lado do cedro, me cerco.
de certo estou errado!
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17.8.06
poesia de pão
dois pedaços de pão.
colocados em cima da mesa a se cortar.
metades desiguais de um todo
massa igual de uma metade,
meta de se encontrar e se partir.
meta de chegar e ainda assim se partir.
me parto em meio ao parto.
me nasço, abro em pernas e choro.
renasço do que faço parte
e metade de mim se arte,
me arde, me trás meia taça de infarte
e me morro no chão.
dois pedaços de pão,
fatia de manhã cedo,
manha que me falta medo.
manha que pão e café amargo.
amaro do café que me anima a fé,
anima o santo,
e saio,
parto que me parte a parte na hora de partir
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8.8.06
jogos de não ter como fazer
Quando o quanto é onde
Quando o porém é longe
Quando o mas é advérbio
Quando a paz não é verbo.
Quando o contundo é entretanto,
Quando o tanto é entregue,
Ao tudo. Todo tolo, estúpido.
Quando o quando é muito longe
Tudo é enquanto
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jogos de não ter o que fazer

Espero a espera que me separa.
No desespero áspero da guerra
Aspiro ao ar que respiro noutra era.
Espero a brisa que cega ao se entregar.
Espero o desespero árido da seca passar.
Espero para espirar
Espirrar meu último suspiro
Espero ouvindo no espelho
Meu sádico sorriso
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15.7.06
semáforo

Vermelho. Verde. Amarelo. Vermelho. Verde. No mesmo tempo, na mesma intensidade que de tarde, sem alegria. A rua deserta esconde em cada calçada, sarjetas e asfalto os carros dormentes. Não há mover. Amarelo. Atento a qualquer parca movimentação, o sinal pára atenciosamente, escuta folha corrente, brisa descuidada, papel de lixo que voa sem preocupação e antes de mudar de sinal se pergunta “onde estão os carros?”. Verde. É madrugada. Como nos estalos de nossos corpos que ouvimos no mais tenso silêncio. Cada movimento sem carro que o semáforo faz é pautado de compasso sério, rígido e marchante. Amarelo. Conselho de mãe. Filho leve o guarda-chuva. Não ande de noite na rua. O sereno. Nesses tempos de violência, fica em casa, filho! Filho já foi. É saído. Do portão ainda escuta os ecos da voz vinda da cozinha. A volta ainda permanece nos tons da mãe. E pensa que pela voz rouca ela deve ter passado a noite toda, vermelho, amarelo, verde.Verde. Pensa em todos os conselhos dados sem ouvidos. Pensa em tanto que ele mesmo já brisou no vento da madrugado. O quanto deve de trocar de sinal à alguém aparecer e parar. Mas os carros não param no semáforo de madrugada. Amarelo. Fica todo atento, mas definitivamente eles não param. Vermelho. O semáforo deve ser uma mãe que de tanto falar, perdeu voz, virou luz, entrou na madrugada para zelar o filho que passa correndo pela rua. Verde.
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