13.7.08

cigana

devida a vida
vendida e vedada
dívida de vida
devida e de morte
de mote, de monte.

devida à vida
dividida em dividendos
vivemos e viventes
vida dividida
em divas e vinhas,
em adivinhas.

26.6.08

mmmm

Tomo a fita métrica em minha mãos
Em meus dedos metrifico meus medos,
Meus mais modestos desesperos medidos.
Comedidos, comportados, confortados na medida.

Me diga como eu digo, inda comedido,
Medido, todas as medidas de meu medo.
Mensurado na certeza dos centímetros,
Sem ti me troco, me fico metrificado.

Emparelho dedo e fita, medo e fito,
Toda toma meu braço, corpo, tronco,
Troco o lado, largo o tronco, me torço, me dobro,
Faço da fita o dobro e meço meu corpo.

Eu sou do tamanho de meus medos.

07h

levanta levado pelo despertador. despertador levado, obtuso e intruso, insistentemente adestrado para a repetição. paulo se ergue intercalando os passos duros batidos no chão e algum barulho com a leveza de quem ainda respira sonho e insiste em olhos se abrirem de uma vez. abrem na água gelada da pia. abrem no espelho. paulo toma a mochila e o café. o pão, amanhecido e esquentado ele alça nas mãos e sai pela porta. o menino pequeno é grande na cidade grande. conduz-se ao ponto de condução. conduzido. mãos pra cima, é hora de andar.

paulo salta do conduzido. é hora de se enfiar embaixo da terra. propagandas. bandos de cartazes lhe aferroam o olho. tudo aquilo só pode não ser verdade. ele vê, tromba, tombo é quase que sempre quase. segue a minhoca de gente, os sentidos da multidão e deixa ser subido. hipotenusa que ascende e acende. cresce. é tempo ruim, chove. aqui no chover é tempo ruim. tudo fica mais lento. a chuva coloca marcha lenta na cidade. e a gente fica imerso, feito bolha, feito peixe na água sem ser peixe, feito peixe na água visto de fora e vendo dentro. a gente fica lento. gente demais.

paulo resolve não entrar na escola. olha de longe mais tantos de gente entrando no portão pixado. o bedel de óculos de muitos anos antes, vê nada, não na outra margem o menino que espreita e espera. e quanto mais gente entra, mais forte paulo fica na intenção. todos entraram. ainda um, atrasado, que afastado se aproxima do portão correndo. força maior. paulo vai ficar sentado nalgum lugar tendo idéia. o menino fica e têm. teima tanto que o tempo passa, a fome não. é hora de voltar pra casa.

o carro era grande. o menino pequeno. a cidade grade e grande, grunhe. o menino paulo virou asfalto.

28.2.08

06h

o sol se colocou na ponta do mundo pra nascer. deu uma estirada funda e jogou longe seus raios. nasceu porto, longe lá, se aportou no cais e de torpor fundo, soldado luzeiro, preguiçoso vai. uma pessoa joão acorda com a corda que o sol lhe dá pela fresta da janela. dá pulo da cama e segue zumbizando sono acordado até a mesa de café. da manhã toma um pingado pela mãe que lhe coça a cabeça em sina de bom dia. come devagar em vista do sono, veste-se em uniforme para rumar caminho cotidiano para escola. traçou nos pés o desenho de sempre e alternou pernas. tinha um intento naquela manhã.

deveria ser dia mais especial que outros. deveria ser dia em que sendo dia diferente haveria de não acontecer tudo como dia-de-sempre. pararia em cada árvore que encontrasse no caminho, e a cada uma delas faria algo diverso. olharia a cada uma como uma. e de uma-em-uma ganharia algo de bom em sua passada. seus passos seguiram.

árvore primeira balançou sombra em sua frente e como era prometido parou e sem pretensões sentou baixo. esqueceu que tinha ouvidos e olhos e sentou. folha caiu duas. pessoa pegou na mão, teve vontade de apertar, mas não tinha quase mão para fazer. não tinha corpo pra fazer mais nada de que corpo faz. tinha vontade grande no peito, tão grande que olhou fundo e no fundo sua vista embaçou, pessoa dormiu.

dormiu de primeira árvore. dormiu e sonhou, de bom tom que era a sombra, teve aconchego para chegar em sono ensonharado. pessoa tinha asas e voava entre os dedos do mundo. juntava folego, rasantes fundos nas bordas da terra e pensando em sonho como era ser de outro modo. engrandenceu sorriso, soltou caderno e lápis sozinhos. eles se desenharam, se escreviam e se apagavam em céu tela. pessoa mergulhava no mar do céu, contava as estrelas de pessoas mundo abaixo. tomava tento, atento e aceno. tomava tudo que não fosse juízo de ordens. decidiu que dali em diante, o mundo se adiantaria o quanto quisesse pra ele. joão não ía correr atrás. corria pra dentro de tudo o que era fora. os olhos aumentavam e brincava os jogos do vento. mãos fundas no céu infinito. pendurado em estrelas. balanço. mãos grudadas nas estrelas, medo de ficar árvore de cabeça virada. vontade de ficar feito balanço, ciscando pé na terra. pé na terra. segura forte e a luz das estrelas feito bolha de sabão no fim do brilho. cai. enterra...

devagar como folha que cai alto. bem de longe pessoa abriu os olhos cheios de terra. então se envergou todo, saiu em folhas de seus cabelos, parou numa esquina moribumda. ficou os pés bem firmes na terra mexida que saia do asfalto. árvore ali nunca morreu nem nasceu. árvore ficou aquela só. joão que era pessoa, que pessoa joão virou ar, varou em si mesmo fruto, folha e caule. joão virou gente grande. pessoa virou árvore.

15.2.08

é paulo.

são paulo da vida que alaga
do dia que nasce mofado
das pessoas impermeáveis.

são paulo da lida que vaga,
da noite que dorme molhada
dos carros e gripe,
das gentes paradas em semáforos.

das gentes que só vêem três cores.

27.12.07

seu natalino

6.12.07

travesseiro

depenado em espumas, rasgado de corpo inteiro. travestida em choro, de preto, de saia, de pequenos cortes. de tecido. teimosa de lidar da vida. me encontro linda no espelho quebrado desse banheiro. travesseiro nervoso, utilitário, sou um cavaleiro desnudo. sou travessia. bate na cara. no cara, na cor minha de rei princesa. direi filha da puta. filho sem puto, sem o direito de ser direito.

o batom pastoso me passa da porta para a rua. calçada. descalço, num quarto qualquer, poderosa, poderoso, alguém me toma no cu, me joga na pedra, no lençol sujo. não há lenço. homem não chora e seguro em meu vestido preto a dor do ser qualquer, casaco pele de bicho. e quem grita por mim, se minha palavra quando sai é choro? se meu andar é cadente de cada em tempo manco. meu corpo travesssia o seu. atravesseiro em riacho diacho. me contemplo na dor do teu suor de sangue. travessado, transparente, transitório, transeunte.

tomo meus cortes no corpo. tomo todas pílulas da felicidade intermediária. da vida entre o vão, entre o carinho e o murro, entre ser inteiro e ser entre. entro em casa, entro no banho, aperto entre as pernas. travesseiro.

19.10.07

ciranda da lua

o vestido mais bonito, aquele rodado que abraça minhas pernas.
de mãos dadas fazendo coração no ombro
e sorrindo bobo o braço solto.

a noite enluarando nossas sombras,
juntas como alma no chão, cheia na rua,
conversa sem gravidade bailando ciranda

sentir o calejo das mãos, os gomos dos dedos,
a dança nova, o sorriso crescente, a rua cheia, a dor minguando
em cada carícia esbarrada, ombro em colo, susto de se perceber perto.

o amor ridículo dos clichês, o amor dos sonetos sem métrica,
das juras confusas, dos nossos sonhos românticos
olhados pela lente do garrafão de vinho.

bailando canção nova
enquanto meu peito crescente,
iluminado pela luz cheia,
esquece toda dor minguante.

nosso amor dança, cantado pelo coelhinho da lua,
se junta, se roda, se pé, se dança, se canta, se roda, se junta, ciranda.

1.10.07

canto calado

corre num ninho
passo largo e bico
fechado feito pato
nesse lago corre ninho

vida desnuda pena
olhos grandes
curiosos de vida
de voar correr céu

corro passarinho
e vejo começo
buniteza e ninho
bicos fechados

vida sem pena
peso e cuidado
vida sem canto
canto corro ninho

vida passarinho
toca vida primeira
vida e toca seresteira
passa ninho

20.9.07

mareia

onda em bolha de ressaca
casaca de rede em boda
da bode de casa e onda
êmbulo de restasse dobra

brado se está ser bem
me ressaca se o rabo
borra a seca do leme
me lendo me casse me vai embora

12.9.07

inerte

a
g
r
a
v
i
d
a
d
e
n
ã
o
n
o
s
d
e
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x
a
s
o
n
h
ar

concepção

hoje me reparto em mil partos,
me reparo no instante e paro.
parado entre o parto e o infarto,
farto dos nascimentos concretos,
dos cimentos fartos em minhas pernas,
em meus partos, em meus infartos.

hoje me distribuo em fardos,
almofadas de pesos em meus calos,
em meu lombo que mofa a voz
que me leva louco ao colo, me calo.

hoje eu me divido em eternidade,
em cortes retos a cada nova idade,
em fortes ventos que me fazem partir.
a ti me parto, farto chego em seus braços fartos.
chego aconchegado em teus todos braços,
e quando vejo em teu rosto-espelho o enfado,
já é hora de me repartir, parto.

7.9.07

gaveta

quando
abro desponta
aos poucos uma luz insegura que apoiada
nos contornos da madeira se espreguiça toda pra fora.
olha para os lados e se atira na imensidão do lá.
raios finos compridos cumprimentam os pontos mais escuros.
que gentis se encolhem nas cantos das paredes.
embaixo da cama, em algumas sombras que fazem palco.
deito empurro, aos poucos, madeira, que agora faz, trêmula luz..
balé de opostos, dança una de recuo cinza
mergulho de costas buscando a mão
madeira, ainda um olhar
que se ajoelha
e fecha os
olhos

6.9.07

sapopema em quadrilha

a rua dos banqueiros é paralela a rua do controle é parelala a dos correntistas é paralela a da bolsa.
as paralelas tortas se cruzam na rua da dos financeiros que ainda não tinha entrado na história.

5.9.07

botequim

pois é. é cada tapa. parece que não dá sossego essa vida. dá sim. simplesmente chego e toma uma que nem sei. sei como é. é não. não que eu digo o contrário mas passa. passa bem. bem que eu disse pra tomar jeito. jeito nada. danada parece até sabonete. teimosa que se pega no ar já foi. foi mesmo. mordeu o zóio e saculejou toda saia. a não ser que. que me diz. digo sem aflição que é. é engodo. do meu eu garanto que é pois. pois é.

índice

sujeito simples, as vezes composto, quase sempre indeterminado. cheio de predicados e apostos. poucos pontos, muitas exclamações. adjetivo, sem restrição ou explicação. alguns parenteses (só os essenciais). aspas quando lembro de citar. reticências reticente quando quiser o todo. interrogação para as exclamações mais cheias de suspense. concordância nenhum quando o sujeito não for de compartilhado. gerúndio enquanto estamos fazendo que o aparecimento do ponto se faça feito! particípio sim, de todas os encontros, consonantais ou não. orações coordenadas com meu deus, caminho sintático pela vida, palpando nas morfologias, nos sujeitos abstratos, nos substantivos de modo, nos telhados do meu alfabetomega...

e ponto final!

separado

andopelasruastentandoencontrarumlugarparaparar
descançarmeupeitoserenarossuspirosospésdoídosasensa
çãodeesgotamentoquetomatodoom
eucorpoencontraralgumasoluçãopraessemundoquem
edátoconasmaistênuesesquinasqueriasairdessaruaentraremcasaemumacasae
deitarnumlugarqualquerdede
scançoquente mas não preciso mais ficar preocupado o frio parece diminuir me sinto quente, calmo, a noite pra dentro, eu engolindo cada estrela, gargantardente cachaçada noite, hoje anoitenão vai acabar; me dei to na cal ça daon de ex piro,
m e m o r r o.

3.9.07

allegro molto

poesia muda é feita na mão,
entre sinais libres,
nas entrelinhas dos dedos,
no dedilho das palavras surdas.

afrouxo de voz
vocalizações inauditas
minhas cordas emaranhadas
contorcem em dança quieta

surdo em batuque bateria
bateria em meu peito de vibração
faria o som surdo
vibratto em meu allegro
afinado e mudo.

quadrilha junina
a dança nas mãos
a música no rosto
o maestro em todo lugar

com meu peito surpreso,
minha boca se cala,
minha voz se muda de lugar.

19.12.06

mp3 (ou crônica para escutar no ipod)

god save the queen. saio de casa cedo. cabelo molhado, gel, mochila e o essencial para voltar no meiar da noite. há algum tempo passei a usar um mp3. à noite, seleciono a trilha sonora do dia seguinte. preparo pilha e fone de ouvido. de manhã, basta um toque e o mundo ganha som. god save the hostory. intercalo as paisagens vistas pela janela do ônibus à la heavy metal e punk rock. a trilha quase sempre desconexa com a paisagem dá charme especial. oh lord god have mercy...

então passei a reparar a enormidade de pessoas que perambulam pela cidade com os fones pendurados no ouvido. drive my car into the ocean. e ouço pessoas passando pela avenida paulista ao som de debussy, ou atravesso o largo da concórdia com açúcar e com afeto e tanta gente com aquele fiozinho pendurado entre as orelhas. on a wave of muti...

bom dia. oi. i've kissed mermaids. dá rode the licença el nino. desculpa incomodar. oi. walked. moça. the sand. esses dias vi no metrô uma senhora levar alguns minutos para se fazer ouvir pela mocinha que ocupava seu assento preferencial. a menina tira o tapa-ruído, levanta as sobrancelhas, arregala os olhos. a senhora começa tudo de novo. seu cartão não passou. o rapaz tira o fone e pergunta. o que? o seu cartão... oi, que horas são por favor? oi! o boy tira os fones. que foi? as horas... wave of mutilation, wave of mutilation...

a comunicação ficou mais difícil. as pessoas sai em busca de salário têm de falar tudo dobrado. e sabe aquela vontade interiorana de conversar com a pessoa que sentou do seu lado no ônibus pra comemorar nem sei o que? esquece! ela está de mp3. é uma placa silenciosa de quem quer ficar no próprio barulho. e mundo parece ficar mais autista. vamos se enclausurando na trilha sonora do dia. a ida ao trabalho qual o que é um longo vídeo-clipe.

comecei a me angustiar vendo essas pessoas, você vem feito criança. todas tão solitárias no meio de seu mundinho, que antes já era fechado, agora vem com trilha maltrapilho, maltratado. hoje entrei no ônibus, depois de passar dez minutos tentando entender o cobrador que me pedia para dar o dinheiro a ele e descer pela porta da frente. Sentei no assento não-preferencial, tirei os fones e me senti feliz com todo aquele barulho. Sai da frente filho da puta!

20.8.06

pêndulo

de certo, estou errado!
só pode ser,
é o que me parece...

se me aparece a soma,
some com certeza o que pode ser.
e se poder era noutra era o que se erra
então o meu caminho errante
de certo está errado!

certeiro no desajuste,
o ponteiro se perde na hora contrária.
contraria o que se acha
de certo de estar justamente apontado.

ao ponto aponto a pena
e ponho no pêndulo.
penduro a maciez do pontilhado,
e pinto o telhado do balanço comportado.

com porta e traço
ponta do lápis alada.
ao lado do cedro, me cerco.
de certo estou errado!

 
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